O teu ohar
Eram 5 da manhã e Bernardo ainda esperava o comboio das 4:45.
Bernardo tinha uma vida muito aborrecida, muito séria e monótona. Os seus dias eram passados no trabalho que ficava em Lisboa, enquanto ele morava no Porto.
Tinha 25 anos, não era casado, era alto, olhos esbugalhados e cabelo ruivo. Era bastante antipático e arrogante e não tinha muitos amigos. Para dizer a verdade, tinha um único amigo, o seu colega de quarto.
Chegou o comboio e Bernardo entrou. Sentou – se num canto, longe de todos, como se quisesse estar só. Enquanto punha os auscultadores para ouvir música, entregava o bilhete ao revisor para este o picar.
Bernardo, ia olhando para a paisagem pela janela. Via a mesma paisagem todos os dias, mas nunca se aborrecia de a contemplar. Fazia – o lembrar a casa de campo onde tinha crescido. Era bastante acolhedora e Bernardo passara lá bons momentos com a sua família.
Preparava – se para começar a ler o livro “ A Relíquia”, quando, se aproxima uma senhora, que aparentava ter 20 e poucos anos. Era alta, cabelos acastanhados e uns lábios carnudos e vermelhos como se os tivesse pintado. Pediu para se sentar ao seu lado, porque se sentia incomodada no outro banco, longe daquele, onde se tinha sentado inicialmente. Bernardo respondeu positivamente desviando o seu saco de trabalho para a senhora se sentar.
A senhora chamava – se Inês e morava nos arredores do Porto. Ia visitar a sua avó que estava adoentada, a Lisboa. Enquanto conversavam, Bernardo observava Inês, como se notasse algo de diferente no olhar dela. Tinha um olhar disperso e vazio como se não houvesse nada para ver naquele lugar. Ao mesmo tempo estava fascinado com a calma que aquele rosto transparecia. Foi então, que se apercebeu que era cega.
Sentindo – se observada, Inês perguntou se ele olhava para ela, por ela ser cega. Bernardo não respondeu, mas o seu olhar queria mostrar que sim.
Inês, começou então a contar o que se tinha passado, para ficar cega. Bernardo não tinha perguntado, mas queria fazê-lo. Inês disse que estava numa praia a olhar o mar, quando em volta dela apareceram uns rapazes, com uma moto4. Andaram a uma velocidade surpreendente, e a areia saltava – lhe para os olhos. Deixou de ouvir aquele ruído ensurdecedor. Doía-a - lhe bastante os olhos, quando tentava abri – los. Estava ali, sem ninguém para a socorrer. Só passado bastante tempo é que chegou alguém, e levou – a para o hospital. Já era tarde. Inês já era cega há 3 anos. Sempre ultrapassou as dificuldades sozinhas. Era bastante orgulhosa.
Bernardo ia vendo a paisagem lá fora, enquanto ouvia aquela história impressionante.
Bernardo ficou silencioso durante muito tempo. Estava a pensar que sempre levou a vida muito seriamente e que se lha acontecesse alguma vez algo parecido, não tinha aproveitado momentos dela.
Quando chegaram a Lisboa, Inês despediu – se de Bernardo, porque seria a primeira a sair.
Chegado ao ponto de saída dele, amarrou nas suas coisas e saiu do comboio, com um enorme sorriso na cara, por ter conhecido alguém, que lhe fez ver a vida de uma forma diferente.